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Toxicologia Regulatória: Planejamento Estratégico do Teste de Ames Otimizado para Nitrosaminas

27 de ago.
5 min de leitura

A avaliação de segurança de medicamentos atingiu um novo nível de exigência técnica. Para os profissionais da indústria farmacêutica responsáveis por dossiês de registro e gestão de risco regulatório, uma dúvida tem sido recorrente: como garantir que a submissão de testes de genotoxicidade para impurezas complexas não sofra exigências ou rejeições por parte das agências reguladoras?


A resposta reside no planejamento estratégico prévio à execução laboratorial. Quando se trata da detecção do potencial mutagênico de nitrosaminas, delegar decisões cruciais para a fase de bancada é um erro que compromete prazos e orçamentos. É fundamental compreender as limitações dos ensaios tradicionais, entender a necessidade técnica do Teste de Ames Otimizado e, principalmente, prever a escolha dos controles positivos antes mesmo de contratar o prestador de serviço.


Execução do Teste de Ames Otimizado (EAT) para avaliação de segurança de medicamentos na InnVitro. A imagem ilustra a análise prática em placa de Petri, coleta de dados toxicológicos e representação molecular de nitrosaminas.


Abaixo, detalhamos a dinâmica de planejamento e condução de estudos robustos, alinhando às expectativas técnicas do setor às exigências mais recentes da ANVISA, EMA e FDA.



O Desafio das Nitrosaminas e a Atualização Regulatória

A gestão de risco regulatório atrelada às nitrosaminas consolidou-se como um pilar permanente na indústria farmacêutica global, distanciando-se da fase de resposta emergencial outrora iniciada pela crise das sartanas. Em uma convergência de diretrizes, agências como EMA, FDA, ANVISA entre outras passaram a classificar as N-nitrosaminas como cohort of concern.


Do ponto de vista prático, essa classificação retira essas substâncias do escopo geral previsto no guia ICH M7(R2). Em substituição a limiares genéricos como o Threshold of Toxicological Concern (TTC), o cenário atual exige o estabelecimento de limites de ingestão aceitável (AI), os quais devem ser calculados caso a caso, resultando frequentemente em faixas extremamente restritas de poucos nanogramas por dia.



Por Que o Teste de Ames Tradicional Apresenta Limitações?

Historicamente, o Ensaio de Mutação Reversa em Salmonella/microssoma (Teste de Ames - OECD TG 471) tem sido a principal ferramenta de triagem para a mutagenicidade de impurezas farmacêuticas. Contudo, a avaliação de nitrosaminas revelou uma limitação operacional severa nesse ensaio tradicional.


Atualmente é bem estabelecido que a genotoxicidade das nitrosaminas é majoritariamente dependente da hidroxilação do carbono alfa, processo este promovido por enzimas do citocromo P450. É esta ativação metabólica específica que gera íons diazônio e carbocátions eletrofílicos capazes de se ligarem ao DNA, conforme mencionado no Guia n° 50/2021 da ANVISA. O grande entrave é que as condições do Teste de Ames padrão (OECD 471) não vinham se mostrando suficientes para promover essa ativação metabólica de forma adequada. Como consequência, o ensaio em sua forma clássica apresenta sensibilidade reduzida para detectar a mutagenicidade de diversas N-nitrosaminas, destacando-se a NDMA (N-nitrosodimetilamina), frequentemente ligada a alertas no setor.



O Que Muda no Teste de Ames Otimizado (EAT)?

Para aumentar a sensibilidade do ensaio para a detecção do potencial mutagênico de nitrosaminas, as três principais agências (ANVISA, EMA e FDA) recomendam a condução do Enhanced Ames Test (EAT), ou Teste de Ames Otimizado. O EAT mantém o racional científico do ensaio clássico, porém incorpora modificações metodológicas estritas que, em estudos de validação contribuíram significativamente para o aumento da sensibilidade do método, incluindo:


  • Linhagens Específicas: É obrigatório o emprego das linhagens TA100, TA1535, TA1537 e TA98 de S. typhimurium, juntamente com a linhagem WP2 uvrA (pKM101) de E. coli.


  • Pré-incubação Ampliada: Exige-se o uso do método de pré-incubação, ampliando o tempo de exposição da linhagem à substância teste de 20 para 30 minutos.


  • Fração S9 Elevada: Ocorre o aumento da concentração da fração S9 no sistema de metabolização exógeno, de 4–10% para 30%.


  • Dupla Metabolização: É mandatório o uso de dois tipos de metabolização exógena, utilizando frações S9 provenientes de ratos e de hamsters, ambas ativadas por indutores de CYP450.


  • Controles Adicionais: Exige-se a inclusão de duas nitrosaminas atuando como controles positivos adicionais, somando-se aos controles padrão já definidos para cada linhagem.


Nota técnica: Caso a impureza já tenha apresentado resultado positivo em um Teste de Ames padrão (OECD 471), não existe a necessidade técnica de repetição do ensaio na condição otimizada.



A Exigência Crítica: Nitrosaminas como Controles Positivos

A obrigatoriedade de duas nitrosaminas como controles positivos adicionais é o pilar de validação do EAT. Esse requisito tem o objetivo primário de comprovar que o sistema S9-mix empregado é capaz de metabolizar a classe da nitrosamina avaliada, assegurando a sensibilidade do método na detecção do efeito mutagênico.


As diretrizes da ANVISA, EMA e FDA determinam que essas nitrosaminas devem ser mutagênicas comprovadas na presença de metabolização. A seleção deve ser tecnicamente justificada com base no metabolismo das N-nitrosaminas, podendo incluir opções como a NDMA, a CPNP (1-ciclopentil-4-nitrosopiperazina) ou uma NDSRI (Nitrosamine Drug Substance-Related Impurity).



Planejamento: A Decisão Que Antecede a Contratação

Um dos pontos de maior falha operacional no delineamento do Teste de Ames Otimizado é escolher erroneamente as nitrosaminas controles e realizar esta etapa na fase de contratação do EAT. Esta é a primeira decisão do planejamento e recai sob a responsabilidade do fabricante do medicamento ou do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), exigindo um racional científico embasado nas características individuais da nitrosamina em estudo.


Esta escolha prévia dita quais padrões analíticos deverão ser adquiridos e em qual concentração e volume. Diferentemente de reagentes comuns, padrões de referência de nitrosaminas, especialmente as NDSRIs, não possuem disponibilidade imediata, apresentam restrição de fornecedores e demandam prazos logísticos e aduaneiros consideráveis para importação.


Antecipar a estratégia da definição dos controles garante vantagens substanciais ao projeto:


  • Robustez Regulatória: A seleção inadequada de controles invalida a comprovação de eficiência do sistema metabólico, resultando na rejeição do ensaio pelas agências reguladoras.


  • Previsibilidade de Cronograma: O mapeamento logístico prévio dos padrões impede que gargalos de aquisição paralisem o avanço do estudo.


  • Precisão Orçamentária: A definição exata das quantidades e tipos de padrões necessários permite o controle e a aprovação rigorosa do orçamento.


Considerando o alto investimento financeiro e de tempo inerente ao Teste de Ames Otimizado, a definição prévia dos controles e do delineamento experimental blinda o projeto contra decisões tardias e onerosas.



A Autoridade da InnVitro em Genotoxicidade Regulatória

O Teste de Ames Otimizado evidencia o nível de rigor alcançado pela toxicologia regulatória contemporânea. Não se trata de aplicar um protocolo engessado, mas de embasar decisões técnicas complexas que requerem domínio absoluto sobre o método bem como sobre os perfis químicos emetabólicos das nitrosaminas.


A InnVitro consolida-se como referência nacional, contando com uma forte formação na área de genotoxicidade e com o pioneirismo na execução do Teste de Ames em Boas Práticas de Laboratório (BPL) para registro de produtos no Brasil. Nossa trajetória e expertise nos capacitam a assessorar a indústria farmacêutica de ponta a ponta: desde o desenho estratégico e planejamento, passando pela condução de estudos metodologicamente irretocáveis, até a interpretação de resultados em estrita conformidade com ANVISA, EMA e FDA.


Caso o escopo do seu projeto exija a avaliação do potencial mutagênico de nitrosaminas ou outras impurezas farmacêuticas, entre em contato conosco antes de consolidar o cronograma do seu próximo estudo. Vamos avaliar a sua demanda e propor soluções.


Agradecemos a sua audiência. Até breve!


Miriana Machado, PhD, DABT





Referências



  • ANVISA – AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. 2024. Guia nº 50/2021 – Guia sobre o Controle de Nitrosaminas em Insumos Farmacêuticos Ativos e Medicamentos. Versão 4.


  • BRASIL. 2022. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 677, de 28 de abril de 2022. Dispõe sobre a avaliação de risco e o controle de nitrosaminas potencialmente carcinogênicas em Insumos Farmacêuticos Ativos (IFA) e medicamentos de uso humano. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 4 maio 2022.


  • EMA – EUROPEAN MEDICINES AGENCY. 2024. Appendix 3 to Questions and answers for marketing Authorisation holders/applicants on the CHMP Opinion for the Article 5(3) of Regulation (EC) No 726/2004 referral on nitrosamine impurities in human medicinal products EMA/120337/2024. Enhanced Ames Test Conditions for N-nitrosamines.


  • FDA - FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. 2024. Control of Nitrosamine Impurities in Human Drugs: guidance for industry. Revision 2. Silver Spring, MD: U.S. Department of Health and Human Services, Center for Drug Evaluation and Research (CDER).




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